quarta-feira, 15 de agosto de 2007

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MIGUEL TORGA


"Parou. Mas quando acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação?
Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
Calada a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois,numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume".

Miura

BICHOS de Miguel Torga

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

QUANDO OS LÓBIS UIVAM EM CABECEIRAS DE BASTO


"O que fez falta foi (...)
Uma cidadania ou prática política que ultrapasse a retórica dos bons princípios e que
encerre, uma vez por todas, o fosso chocante e degradante, entre os beneficiários da democracia do 25 de Abril, e são muitos, felizmente, e os desdentados de Cabeceiras de Basto.
(...)...todos têm direito a uma dentadura completa, mesmo que pertençam ao grupo dos mais velhos, com mais baixa literacia"
Ana Vicente (investigadora)
PÚBLICO 5 Agosto 2007


Cabeceiras de Basto; velhadas com baixa literacia, etc. e tal?!
Minha querida e bem intencionada investigadora, a senhora anda a precisar de lentes!
Tenho mesmo de contar porque foi que caí da minha arlinda abaixo, me parti todo e dei cabo do blusão a imitar cabedal.
Tudo começou quando recebi o comentário do meu primo cão velho. Cujo inenarrável teor, penso eu de que, já é do vosso conhecimento.
Sabem como é um homem apaixonado'...Agora imaginem um lobo. Pois montei a minha arlinda para ir tirar, pessoalmente, satisfações àquele velho babão. Mas na autoestrada lembrei-me da boca dele, desdentada, a tentar dizer "fonix". Nisto dá-me uma valente força de riso, desvairado, e não vi o velhadas que vinha direito a mim, em contramão.
Acordei no corredor de um hospital distrital qualquer(posso mesmo assegurar que não pertencia a Cabeceiras de Basto) com uma data de gente nas macas e nas cadeiras ali dispostas, todas desdentadas e a tentarem dizer...Isso mesmo que estão a pensar!...E eu todo partido e encolhido, para suster o riso, que me provocavam todas aquela bocas desdentadas, a tentarem pronunciar o luso prozac, "fonix".
Só quem tinha ali os dentes todos eram dois tipos, sinistros, vestidos de fato-inteiro preto que se abeiraram de mim e disseram:"deixamos aqui o nosso cartão, por sim ou por não".
Nisto vem a auxiliar de acção médica, rapariga linda e simpaticíssima que só não sorri mais porque, percebi depois, não tem dois dentes da frente e, confidenciou-me também, não sabe quando os irá ter,e correu dali com os gajos. Fiquei a saber que têm uma funerária denominada "7 Palmos de Terra".
A pobre da auxiliar, por causa deste seu gesto de compaixão, a partir dali passou a sofrer assédio moral, até não aguentar mais e tomar a iniciativa de se despedir. Se é que se pode chamar, iniciativa, a um gesto baseado em destroçamento psicológico... Agora, nem dentes nem côdea para a boca!
Aproveito aqui para lhe render a minha muito sentida homenagem. E desejar que não se deixe levar por aqueles maldosos que lhe dizem: "faz-te à vida rapariga!"
Não, não é isso que estão a pensar, é mais sobre umas coisas que fazem rir. E que coisa mais triste, ver tanta boca desdentada a rir neste pobre país!