quarta-feira, 15 de agosto de 2007

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MIGUEL TORGA


"Parou. Mas quando acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação?
Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
Calada a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois,numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume".

Miura

BICHOS de Miguel Torga

3 comentários:

utopia-x-7 disse...

O Narciso

O desenho impreciso
De cada rosto humano, reflectido!
Mas, o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro…
Porque há-de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?

Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!

À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia…

Miguel Torga

jguerra disse...

Quem diria... passou quase desapercebido... a não se para alguns. Pena... apesar de não gostar muito da poesia dele, a prosa era sublime.
Um abraço e obrigado pela visita. Volta sempre.

Ena Pá! disse...

É o estado da inversão de valores que grassa por este nosso pobre país. E que atinge tragicamente os nossos próprios governantes.

Um abraço. Voltarei