
"Parou. Mas quando acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação?
Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
Calada a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois,numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume".
Miura
BICHOS de Miguel Torga

3 comentários:
O Narciso
O desenho impreciso
De cada rosto humano, reflectido!
Mas, o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro…
Porque há-de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?
Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!
À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia…
Miguel Torga
Quem diria... passou quase desapercebido... a não se para alguns. Pena... apesar de não gostar muito da poesia dele, a prosa era sublime.
Um abraço e obrigado pela visita. Volta sempre.
É o estado da inversão de valores que grassa por este nosso pobre país. E que atinge tragicamente os nossos próprios governantes.
Um abraço. Voltarei
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